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Puerpério: a Jornada Invisível da Maternidade Real

Solidão, exaustão e o peso de dar conta de tudo. O puerpério é mais do que recuperação física, e pedir ajuda é parte do cuidado.

Por Luana C. Silva
Mulher segurando xícara de café entre as mãos em casa, banhada por luz suave da manhã que entra pela janela

A gente fala muito sobre gravidez, sobre parto, sobre a chegada do bebê. Mas o que vem depois costuma virar tabu. O puerpério é essa fase difícil de nomear, em que a mãe ainda está se recuperando do parto, aprendendo a amamentar, dormindo em pedaços, e ao mesmo tempo é cobrada (por si mesma e pelos outros) a estar inteira para o bebê.

Eu sou psicóloga e estou vivendo a maternidade real agora. E é justamente por isso que precisava escrever sobre isso. Porque o puerpério não é só uma fase biológica de recuperação. É também uma reorganização emocional profunda, que ninguém ensina como atravessar.

Neste texto eu quero falar sobre a solidão que existe mesmo cercada de gente, sobre o peso de “dar conta de tudo”, sobre a diferença entre o que é esperado e o que já é sinal de alerta, e sobre por que pedir ajuda no puerpério é, em si, um ato de cuidado com o bebê.

O que é o puerpério, afinal?

O puerpério é o período que começa logo após o parto e se estende, em média, por seis a oito semanas (puerpério imediato e tardio). Em termos clínicos, é a fase em que o corpo da mulher passa pelas transformações necessárias para voltar ao estado pré-gestacional. Mas reduzir o puerpério a isso é simplificar demais.

Existe também o puerpério emocional, que pode durar bem mais. Puerpério emocional é o processo psíquico de se tornar mãe, e costuma se estender por meses depois que o corpo já voltou ao estado pré-gestacional. Há mães que descrevem uma sensação de “não voltar mais a ser quem era”, e isso é reorganização identitária, não doença. Você está, ao mesmo tempo, conhecendo um bebê novo e conhecendo uma versão nova de si mesma. As duas coisas acontecem juntas, sem manual.

Nas primeiras duas semanas é muito comum o chamado baby blues: choro fácil, oscilação de humor, sensação de vulnerabilidade, ansiedade. É transitório e passa sozinho na maioria dos casos. Quando esses sintomas persistem além de duas a três semanas, se intensificam ou começam a interferir nos cuidados com o bebê e com você mesma, já não é mais baby blues, e é importante procurar avaliação profissional.

Por que a mãe se sente sozinha mesmo cercada de gente?

Essa é talvez a pergunta que mais escuto na clínica quando o assunto é puerpério. A casa está cheia. Tem avó, tem visita, tem mensagem chegando o tempo todo. E ainda assim a mãe sente que ninguém vê o que ela está sentindo de verdade.

Algumas razões aparecem com frequência:

  • As visitas vêm pelo bebê, não pela mãe. A pergunta é “como o bebê está dormindo?”, raramente “como você está dormindo?”. A atenção se desloca de forma quase automática para o recém-nascido, e a mãe vira coadjuvante na própria história.
  • Existe uma expectativa social de felicidade plena. “Aproveita, é uma fase tão linda.” Esse tipo de frase, ainda que bem-intencionada, fecha a porta para a mãe falar sobre o que está sendo difícil. Quem está exausta sente que não pode reclamar, porque deveria estar feliz.
  • A rotina vira ilha. Amamentação a cada duas ou três horas, noites partidas, dificuldade de sair de casa nas primeiras semanas. A mãe pode passar dias sem uma conversa que não seja sobre o bebê.
  • O parceiro, quando existe, também está em adaptação. Costuma ser desencontro de ritmo, não falta de amor. Cada um está processando a chegada do bebê de um jeito, e nem sempre dá para conversar sobre isso no meio do caos.

Reconhecer essa solidão sem culpar ninguém (nem você, nem a rede de apoio) é o primeiro passo para começar a pedir o que você precisa de forma mais direta.

O peso de “dar conta de tudo”

Existe uma fantasia silenciosa que aparece muito no puerpério: a de que a boa mãe é aquela que dá conta sozinha. Que amamenta sem dor, dorme quando o bebê dorme, mantém a casa funcionando, agradece as visitas, posta foto sorrindo e ainda volta ao corpo de antes em três meses.

Essa fantasia adoece. Porque ela não existe, e tentar alcançá-la custa caro. A sobrecarga emocional no puerpério tem nome clínico: é exaustão, e ela tem sinais corporais e psíquicos. Insônia mesmo quando o bebê dorme, irritabilidade, chorar por motivos pequenos, sensação constante de estar falhando, perda de prazer em coisas que antes faziam bem.

Quando a mãe começa a se cuidar de verdade no puerpério (descansar, pedir colo, dizer não para visita), é comum perceber que o autocuidado às vezes incomoda quem está em volta. Isso é sinal de que você está saindo de um lugar de superfuncionamento que servia aos outros, não de que está errada.

Cuidar de si no puerpério não é luxo, e também não é egoísmo. Uma mãe que está dormindo o mínimo viável, comendo o mínimo viável e tendo alguém com quem conversar consegue se conectar com o bebê de forma muito diferente de uma mãe esgotada tentando segurar tudo no muque.

Cuidar de si no puerpério é infraestrutura.

Pedir ajuda é sinal de que você está prestando atenção em si e, por consequência, no bebê. Não é fraqueza.

Quando o puerpério atravessa a linha para depressão pós-parto?

Aqui entra a parte mais delicada deste texto, e a mais importante. Baby blues e depressão pós-parto (DPP) podem começar parecidos, mas têm trajetórias diferentes. Depressão pós-parto é um quadro de saúde mental que se instala no puerpério e persiste para além das primeiras semanas, afetando a forma como a mãe consegue cuidar de si e se conectar com o bebê.

Sinais que merecem avaliação profissional sem demora:

  • Tristeza profunda ou choro frequente que persistem além de duas a três semanas após o parto
  • Dificuldade ou desinteresse em se conectar com o bebê
  • Sensação de incapacidade, culpa intensa ou de “ser uma má mãe”
  • Ansiedade desproporcional, pensamentos repetitivos sobre algo ruim acontecer
  • Alterações importantes de sono que não se explicam só pela rotina do bebê
  • Pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê

Esse último ponto é uma urgência. Se você está tendo pensamentos de morte, de se machucar ou de machucar o bebê, procure ajuda agora. Você pode ligar para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188, gratuito, 24 horas, sigiloso. Pode também procurar a emergência psiquiátrica mais próxima ou pedir para alguém de confiança te acompanhar até um serviço de saúde. Ter esses pensamentos não faz de você uma má mãe. Faz de você alguém que precisa de cuidado especializado, e esse cuidado existe.

Vale lembrar também que o puerpério é um período em que situações de violência doméstica podem se intensificar, e que o Ligue 180 é um canal gratuito, sigiloso e disponível 24 horas para denúncia e orientação. Se a sua casa não está sendo um lugar seguro, isso é uma emergência separada, fora do puerpério, e também precisa ser nomeada.

O acompanhamento da DPP costuma envolver psicoterapia e, em alguns casos, medicação. Existem opções medicamentosas compatíveis com a amamentação, mas essa é uma decisão estritamente médica, feita por psiquiatra em conjunto com o obstetra e a pediatra do bebê. Este texto orienta e dá direção, não substitui consulta clínica.

Como construir uma rede de cuidado real

Rede de apoio é ter gente que ajuda do jeito que você precisa, não apenas gente por perto. Algumas ideias práticas para construir isso:

  • Nomeie o que você precisa. “Eu preciso que alguém segure o bebê meia hora para eu tomar banho com calma” é mais útil do que esperar que adivinhem. As pessoas que te amam geralmente querem ajudar, só não sabem como.
  • Restrinja visitas se for o caso. Visita curta, em horário combinado, e que traga comida em vez de levar atenção. Você tem direito de proteger o seu espaço nas primeiras semanas.
  • Cuide do básico antes do bonito. Comida, água, sono em pedaços, banho. Antes de qualquer cobrança estética ou de “voltar ao normal”.
  • Procure outras mães. Grupos de puerpério, presenciais ou online, ajudam muito. Saber que outras estão vivendo coisas parecidas tira o peso de achar que o problema é você.
  • Considere acompanhamento psicológico. Não precisa esperar “estar mal o suficiente”. A psicoterapia no puerpério funciona também como espaço preventivo, em que você organiza o que está sentindo antes que vire crise. Conheça o trabalho da equipe de psicologia da Positivamente se quiser entender como esse acompanhamento acontece.

Se você quiser ler sobre a saúde emocional já durante a gestação, escrevi também sobre emoções na gravidez e cuidado em saúde mental. Os dois textos conversam, porque o cuidado emocional que começa na gravidez tende a ser uma base importante para atravessar o puerpério com menos solidão.

Você importa também

Se eu pudesse deixar uma única frase deste texto com você, seria essa:

A sua saúde mental no puerpério é parte do cuidado com o bebê, não algo concorrente.

Você não está sendo egoísta quando descansa, quando pede colo, quando chora, quando procura terapia. Está sendo responsável.

Maternar é, em muitos momentos, uma travessia silenciosa. Mas silenciosa não precisa ser sozinha. Se este texto te tocou, fala com alguém hoje. Pode ser o seu parceiro, sua mãe, uma amiga, uma psicóloga, o CVV. Falar é o primeiro fio da rede.

Luana C. Silva, CRP 04/45446

Perguntas frequentes

O que é puerpério e quanto tempo dura?
O puerpério começa logo depois do parto e costuma durar entre seis e oito semanas no corpo. Só que a parte emocional pode se estender por bem mais tempo. Você está conhecendo um bebê novo e uma versão nova de si mesma ao mesmo tempo, sem manual.
Baby blues e depressão pós-parto são a mesma coisa?
Não são. O baby blues aparece nas primeiras duas semanas com choro fácil, oscilação de humor e ansiedade, e some sozinho na maioria dos casos. Quando os sintomas atravessam a terceira semana, se intensificam ou começam a atrapalhar os cuidados com o bebê, já é hora de procurar avaliação profissional.
Por que me sinto sozinha mesmo com a casa cheia?
Porque a atenção das visitas vai quase toda pro bebê, e a pergunta costuma ser como ele está dormindo, não como você está. Some isso a uma rotina de amamentação a cada duas ou três horas e dias sem conversar sobre outra coisa, e a solidão se instala mesmo no meio da casa cheia. Reconhecer isso sem culpar a rede ajuda a começar a pedir o que você precisa de forma mais direta.
Pedir ajuda no puerpério é sinal de fraqueza?
Pelo contrário. Pedir ajuda mostra que você está prestando atenção em si e, por consequência, no bebê. Uma mãe que dorme o mínimo viável, come e tem com quem conversar se conecta com o bebê de um jeito muito diferente de uma mãe esgotada tentando segurar tudo no muque.
Quando procurar avaliação profissional na depressão pós-parto?
Quando a tristeza ou o choro frequente passam da terceira semana, quando falta interesse em se conectar com o bebê, ou quando aparece culpa intensa, ansiedade desproporcional e alterações de sono que não se explicam só pela rotina do bebê. Pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê são urgência: ligue para o CVV no 188, a qualquer hora, gratuito. Ter esses pensamentos não faz de você uma má mãe.
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