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Gestação e saúde mental: o que ninguém conta antes do parto

Por que a gestação mexe tanto com a cabeça da mulher, quais sentimentos são normais e quando vale procurar apoio psicológico além do pré-natal.

Por Luana C. Silva
Mulher grávida com as mãos sobre a barriga, olhar voltado para baixo em atitude contemplativa, junto a uma janela de madeira com luz dourada natural

Quando uma mulher descobre que está grávida, quase todo mundo ao redor começa a falar do corpo. Da barriga que vai crescer, do enjoo do primeiro trimestre, do que pode e do que não pode comer, do peso, do parto. É muita informação prática chegando ao mesmo tempo.

O que costuma ficar de fora dessa conversa é o que acontece por dentro. A gestação também é uma virada emocional grande, e ela começa bem antes da barriga aparecer. Vejo na clínica gestantes chegando com uma pergunta parecida: “será que é normal eu estar me sentindo assim?”. Na maioria das vezes, sim. E justamente por ser normal, precisa de espaço pra ser falado.

Este texto é um convite pra olhar pra essa parte da jornada que costuma ficar invisível. Não substitui o acompanhamento da sua equipe de pré-natal nem o trabalho com um psicólogo, mas talvez ajude você a reconhecer algumas coisas que está sentindo e a entender quando vale buscar apoio.

Por que a gestação mexe tanto com a cabeça da mulher?

Existe uma parte hormonal, claro. Mas, do ponto de vista psicológico, a gestação é uma das fases da vida em que a pessoa mais se reorganiza por dentro. Quase tudo que sustentava a identidade da mulher passa a ser revisto: profissão, relacionamento, corpo, dinheiro, vínculo com a própria mãe, planos pros próximos anos.

Muitas pacientes me contam que começam a refletir sobre coisas que estavam guardadas há muito tempo. A relação com os pais. O tipo de infância que tiveram. O que querem repetir e o que querem fazer diferente. Quem elas eram antes desse projeto e quem estão se tornando.

Esse movimento interno é o que a psicologia perinatal chama de processo de construção da identidade materna, ou seja, a reorganização interna pela qual a mulher passa pra incorporar esse novo papel na vida dela. Não é algo que acontece só depois que o bebê nasce. Começa no momento em que a gestação se torna real, e segue por meses, às vezes anos. Por isso é tão comum a mulher se sentir, ao mesmo tempo, animada, assustada, conectada e sem chão.

Tudo isso pode coexistir, e nenhuma dessas emoções anula a outra.

Quando a gente entende que esse turbilhão tem uma função, fica mais fácil acolher o que está acontecendo em vez de tentar calar.

O vínculo com o bebê não nasce pronto

Outra coisa que costuma assustar é a expectativa social de que a mãe “ame o bebê desde o primeiro segundo”. Algumas mulheres realmente sentem isso. Outras não, e ficam com medo de que algo esteja errado com elas.

O vínculo afetivo é construído, não obrigatório: ele vai se formando aos poucos, em momentos diferentes pra cada mulher, e não chega pronto em nenhuma delas. Pode aparecer na primeira ultrassom, quando ela vê o coraçãozinho batendo. Pode demorar até os primeiros movimentos, lá pelo segundo trimestre. Pode chegar só depois do nascimento, quando o bebê está no colo. E todas essas possibilidades são normais.

Falar com a barriga, escolher uma música, imaginar como vai ser o rosto do bebê, conversar com ele em voz alta no chuveiro: essas pequenas práticas do dia a dia ajudam o vínculo a se firmar. Não é obrigação, é convite.

Se não vier naturalmente, não significa que você é uma mãe ruim. Significa que o vínculo está se construindo no tempo dele.

Reconhecer isso alivia muita culpa. E culpa na gestação é um peso que aparece com frequência, mesmo quando a mulher está fazendo tudo o que pode.

Medos e inseguranças que aparecem (e que são normais)

Alguns sentimentos costumam aparecer ao longo dos nove meses, e eles não são sinal de que algo está dando errado. Pelo contrário, mostram que a mulher está levando o processo a sério. Entre os mais comuns:

  • Medo de algo acontecer com o bebê. Especialmente no primeiro trimestre, quando o risco de perda é maior, e na reta final, perto do parto.
  • Insegurança sobre ser uma boa mãe. “Será que vou dar conta?” é uma pergunta que aparece em quase toda gestação, mesmo em segunda ou terceira.
  • Medo do parto. Dor, complicações, perda de controle. Faz sentido sentir.
  • Preocupação com o corpo. Como ele vai ficar, se vai voltar, como a mulher vai se sentir em relação a ele.
  • Ansiedade financeira. O custo real de ter um filho costuma assustar.
  • Mudança na relação com o parceiro ou parceira. Conflitos antigos podem reaparecer com mais intensidade.

Reconhecer esses medos em voz alta, com alguém de confiança, faz diferença. Pode ser uma amiga que já passou pela experiência, um grupo de apoio, a equipe do pré-natal ou um psicólogo. O que não funciona bem é guardar tudo por dentro com medo de parecer ingrata ou exagerada.

Quando o medo fica trancado, ele costuma crescer.

Aqui vale uma pausa: se você está numa rotina puxada e sente que precisa equilibrar trabalho, vida pessoal e essa nova realidade, como organizar trabalho e vida pessoal sem se perder pode ser uma leitura útil pra esse momento.

O papel do parceiro, da parceira e da rede de apoio

A gestação é da mulher, mas a chegada do bebê é do casal e da família que se forma em volta. Quando a mulher se sente sozinha nesse processo, o peso emocional tende a aumentar.

Apoio nessa fase não é só “ajudar a montar o quartinho”. É escutar quando ela quer falar sobre os medos sem tentar resolver tudo na hora. É ir junto às consultas quando possível. É dividir as decisões. É notar quando ela está cansada e oferecer espaço pra descansar. Essas coisas, que parecem pequenas, constroem segurança emocional pros dois.

Pra quem está acompanhando uma gestante: vale lembrar que perguntar “como você está se sentindo hoje?” é diferente de “está tudo bem?”. A segunda costuma receber um “tá” automático. A primeira abre espaço pra resposta real.

E pra gestante: aceitar ajuda também é um aprendizado. Muitas mulheres carregam a ideia de que precisam dar conta sozinhas, ou de que pedir suporte é incomodar. Por que o autocuidado às vezes incomoda quem está ao redor tem reflexões que conversam bem com esse momento, especialmente pra quem está acostumada a se colocar sempre em último lugar.

Quando o que você sente passa do esperado e vira sinal de alerta?

Tristeza, ansiedade, medo e dúvida fazem parte da gestação. O que muda quando esses sentimentos passam a atrapalhar a vida diária? Alguns sinais valem atenção:

  • Tristeza profunda na maior parte dos dias, por mais de duas semanas seguidas
  • Perda de interesse em coisas que antes davam prazer
  • Ansiedade intensa que não passa, com pensamentos repetitivos sobre algo dar errado
  • Insônia importante (além das mudanças normais do sono na gestação) ou sono em excesso
  • Sensação de desconexão com a gravidez ou com o bebê que está incomodando você
  • Pensamentos de se machucar, de não querer mais estar aqui, ou de que o bebê estaria melhor sem você

Esses sinais podem indicar quadros como depressão pré-natal ou transtornos de ansiedade na gestação, que são reais, têm tratamento e merecem cuidado profissional. Depressão pré-natal é um quadro depressivo que aparece durante a gestação (não só depois do parto) e que precisa de acompanhamento da equipe médica e de psicólogo com familiaridade no período perinatal. Eles não são frescura, fraqueza ou falta de gratidão. São condições de saúde mental que aparecem com frequência no período perinatal e respondem bem ao acompanhamento certo.

Se você ou alguém próxima está vivendo isso, fale com a equipe do pré-natal e considere buscar acompanhamento psicológico com profissional que tenha familiaridade com saúde mental perinatal. Em momentos de sofrimento muito intenso, com pensamentos de morte ou de se machucar, vale lembrar que o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Para gestantes em situação de violência, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher, Ministério das Mulheres) também é um recurso disponível, gratuito e sigiloso 24 horas.

Vale lembrar que tudo o que está neste texto é orientação geral sobre a vivência emocional da gestação. Decisões sobre medicação, intervenções e conduta clínica passam pela sua equipe médica, obstetra e, quando indicado, pelo psiquiatra. O psicólogo entra como suporte ao processo emocional, em diálogo com o resto da equipe.

A gestação é uma travessia. Tem momentos lindos, tem momentos pesados, e tem muitos momentos em que a mulher simplesmente não sabe o que está sentindo. Tudo isso cabe. Se você está grávida agora, ou pensando em engravidar, lembre que cuidar da sua cabeça nesse período é cuidar de você e do bebê ao mesmo tempo. Não precisa esperar piorar pra procurar ajuda. Se quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho que faço, minha página de autora reúne os textos que escrevi por aqui.

Perguntas frequentes

A gestação mexe mesmo com a cabeça da mulher?
Mexe muito. Do lado psicológico, a gestação é uma das fases em que a mulher mais se reorganiza por dentro. Coisas que pareciam resolvidas voltam a ser revistas: relação com a própria mãe, planos profissionais, corpo, vínculo com o parceiro. A psicologia perinatal chama esse movimento de construção da identidade materna, e ele começa bem antes da barriga aparecer.
É normal não sentir um vínculo imediato com o bebê?
Sim, e não faz de você uma mãe ruim. O vínculo afetivo se constrói aos poucos, em momentos diferentes pra cada mulher. Algumas sentem isso já na primeira ultrassom. Outras, só com os primeiros movimentos do bebê. Outras ainda, depois do parto, com ele no colo. Conversar com a barriga ou escolher uma música ajuda, mas não é obrigação. É o vínculo se firmando no tempo dele.
Quais medos são comuns durante a gestação?
Medo de algo acontecer com o bebê, especialmente no primeiro trimestre e perto do parto. Insegurança sobre dar conta da maternidade. Medo do parto em si. Preocupação com o corpo, com o dinheiro, com a relação com o parceiro. Esses sentimentos aparecem em quase toda gestação e não são sinal de que algo está errado. Falar deles em voz alta, com alguém de confiança, costuma aliviar mais do que tentar empurrar pra debaixo do tapete.
Como saber se o que estou sentindo passou do esperado?
Alguns sinais merecem atenção quando duram mais de duas semanas: tristeza profunda na maior parte dos dias, perda de interesse em coisas que antes davam prazer, ansiedade intensa que não passa, insônia importante, sensação de desconexão com a gravidez que está te incomodando, ou pensamentos de se machucar. Se aparecerem, fale com a equipe do pré-natal e considere acompanhamento com psicólogo familiarizado com saúde mental perinatal. Em momentos de sofrimento intenso com pensamentos de morte, o CVV atende 24 horas pelo 188.
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